domingo, 19 de fevereiro de 2012

Fim de semana de Carnaval



Nota de culpa:  Não gosto do Carnaval.

Percebo o fenómeno no Brasil e em Veneza, a sério que percebo. Já em Portugal não!!
Senhores vestidos de senhoras e senhoras com pouca roupa, uns quilinhos a mais, num samba frouxo, nas ruas frias da Mealhada, em pleno inverno. Não é a minha praia, a sério que não!!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Política de vinil para uma geração 2.0



Uma tarde de ócio sem me cruzar com política... não é fácil! Não acredita? Então, avanço com a explicação.
Vou até ao café, mais simpático, perto de minha casa e ouço alguém avançar com um definitivo: "Na política é vira o disco e toca o mesmo". De repente os sinos tocam na minha cabeça e eu, que detesto frases definitivas, lanço um olhar. Rapidamente percebo o que me separa do orador. Além das 4 mesas, o que nos separa é o suporte musical.
Deixei o leitor confuso? Então passo a esclarecer. 
O citado cidadão será da geração de 50, logo cresceu a ouvir música em vinil. No seu tempo, a música ouvia-se no lado A e lado B. A política, de então, aproveitou a moda e "virar o disco e tocar o mesmo" passou a ser prática comum, tanto nos discursos como na acção. A minha geração cresceu num mundo em rápida evolução, do CD para o MP3 até ao Itunes. Para mim, a música começa por ouvir um single. Se gosto procuro o resto do álbum, e apenas guardo as músicas que me fazem abanar a cabeça; se não me agrada dou uso à tecla delete, passo para o próximo artista, assunto encerrado. Já a política também passa por uma análise crítica constante, tanto ao que é dito como ao que é feito.
O mundo evoluiu, as novas gerações estão mais atentas. Tal como o vinil, que é uma recordação do passado, procurada apenas por coleccionadores, o caciquismo em breve será artigo para coleccionadores. 
Políticas de vinil não seduzem o mundo 2.0!!


Publicado originalmente em: http://atribunadeviseu.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Grécia a ferro e fogo



A Grécia, depara-se com duas soluções, ou aceita mais perda de soberania ou fica de cofres vazios. Entre a espada e a parede, fica a certeza de que a democracia dentro da UE começa a ser um bem acessório.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A geografia do crime


De  facto o mundo é pequeno, muito pequeno. Quando acontece uma tragédia acabamos, inevitavelmente, por conhecer alguém próximo da vítima. Todos os factos, relativos a este triplo homicídio, conduzem-me de novo a Truman Capote.  
A obra " A sangue frio", entre nós editada pela Dom Quixote, é um dos textos mais perturbadores alguma vez escrito, tanto pelo clima de ansiedade, para o qual nos remete, como pela sensação de violência latente. Fruto de 5 anos de investigação, para a revista The New Yorker, tendo sido originalmente publicado nas suas edições, de Setembro e Outubro de 1965. O livro relata, com grande pormenor, os eventos que levaram a uma noite de violência, sem motivação aparente, resultando no homicídio, a tiro de caçadeira, de quatro elementos da família Cutler. A acção decorreu, a 5 de  Novembro de 1959, na pequena cidade americana de Holcomb, estado do Kansas. O evento, desde logo, induziu uma disrupção à ordem natural da vida na, até então, calma cidade. A dúvida sobre a autoria dos assassinatos levou a que os vizinhos desconfiassem uns dos outros e a recear pela própria segurança. 
O autor, no livro, começa por apresentar e humanizar todos os participantes do fatídico evento. A família Cutler é nos  apresentada como: pessoas honestas, trabalhadoras, com boas relações de vizinhança. Neste momento, o leitor percebe que poderiam ser seus vizinhos, amigos ou até familiares. Também somos  transportados para o universo dos homicidas Perry Smith e Dick Hickock, sendo revelado como se conheceram e embarcaram nesta viagem até ao corredor da morte. Smith é apresentado como um  jovem sensível, inteligente, fruto de uma família disfuncional, possivelmente esquizofrénico e atormentado pelas memórias da juventude. Dick Hickock é visto como criminoso comum, psicopata, destemido, detendo pouca consciência ou empatia pelo “outro”,  com uma obsessão por raparigas jovens. 
Toda a acção relatada, ocorre num espaço temporal que se inicia semanas antes do acontecimento, seguem-se os momentos do homicídio, a detenção dos autores, o julgamento, a apresentação de recursos judiciais, até à execução final em 1965. 
Apesar dos resultados do crime e os seus autores serem indicados no início, o leitor é mantido em estado de alerta, à espera do relato do crime, pois sabemos que algo extremamente violento irá acontecer. As perguntas que surgem, ao longo da obra, são: Porque mataram? E como mataram? O Livro, não deixa de lançar uma visão sobre o funcionamento do sistema judicial americano, bem como uma reflexão sobre a aplicação da pena de morte.
Na minha opinião, tendo em mente que o livro é uma narração de factos reais, é uma abordagem honesta à geografia da crueldade, violência e perversão sexual, inerentes à condição humana. 


Ver texto original publicado na The New Yorker: Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um modo de vida



                                                   
                   O Engraxanço e o Culambismo Português

 " Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele. Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia. Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço». Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc... Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada. O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas.Ninguém gostava de um engraxador. Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu. O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu. Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing.Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo. (...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês."
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


Nota: Um dos nossos grandes atavismos, enquanto sociedade, é que este tipo de actividades estão profundamente enraizadas nos aparelhos e cultura partidária. 
Uma terra, um partido, um cacique! Podia ser o slogan de múltiplas campanhas partidárias, dos anos 80 e 90. Já chega!!
É um imperativo categórico que se cortem estas amarras. Como? Esta atitude começa dentro dos partidos, através do apoio a candidaturas que pela sua juventude, cultura intrínseca ou independência, confrontem os partidários do statu quo!! Os partidos são uma parte fundamental da vida democrática ninguém o pode negar. Mas só damos um passo em frente, na nossa cultura política e democrática, se mudarmos de agentes políticos. O paradigma de agente politico em vigor  conduziu-nos até ao actual estado da nação, francamente os resultados não são positivos. A mudança é um bem necessário, espero que não seja um bem escasso no nosso espaço partidário.